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Depressão causa indecisão e prejudica raciocinio, mas sintomas são ignorados

Categoria: Depressão, Doenças e Transtornos

A maioria dos profissionais brasileiros não associa a depressão a sintomas cognitivos apresentados por quem tem o transtorno.

Eles associam a sinais que impactam diretamente na rotina de trabalho, como dificuldade de concentração, a indecisão e o esquecimento. É o que indica um estudo do instituto Ipsos Mori.

O estudo mostra que 53% dos profissionais que têm depressão apresentem ao menos dois desses sintomas. No entanto, somente 34% das pessoas em geral os associam à doença.

O choro sem razão e a perda de interesse nas atividades cotidianas são citados pela maioria como as principais características da depressão.

O estudo ouviu 1.000 trabalhadores com idades entre 16 e 64 anos.

Segundo Wang Yuan-Pang, psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a associação de sintomas cognitivos com a depressão é mais recente.

Não se dava atenção a isso, mas nos últimos cinco anos vimos que esses sintomas são mais frequentes do que imaginávamos”, diz.

A editora de vídeos Carla Ferreira, 46, recebeu o diagnóstico de depressão no ano passado. Ela conta que já sentiu o impacto desses sintomas na sua rotina de trabalho.

A dificuldade de concentração atrapalha. Às vezes eu esquecia detalhes na edição de reportagens e também não lembrava de passar recados.”

Apesar de médicos cogitarem seu afastamento, Ferreira preferiu continuar no emprego. Segundo a pesquisa, 73% dos profissionais continuaram trabalhando no último episódio de depressão.

Grande parte das pessoas que sofrem do problema não tira licença ou não revela que não têm condições de continuar. É que os sintomas cognitivos são mais fáceis de ocultar“, explica Wang.

AFASTAMENTO

Ainda assim, os dados mostram que um terço dos entrevistados diagnosticados com a doença já teve que se ausentar do trabalho em algum momento.

Dados do INSS indicam que o número de benefícios de auxílio-doença concedidos por conta da depressão cresceu 6% entre 2012 e 2013 -no ano passado, foram 81.845 concessões.

O INSS está mais rigoroso para essa concessão, mas o número de afastamentos continua crescendo“, diz Wang.

Para Duílio Antero de Camargo, psiquiatra e médico do trabalho, o fato de o funcionário trabalhar mesmo apresentando sintomas da doença (presenteísmo), pode custar mais para a empresa do que quando ele se ausenta (absenteísmo). Isso porque o profissional não tem a mesma produtividade.

Elaine Cristina Carvalho, 49, está entre os 25% dos profissionais que já tiveram que tirar uma licença.
Ela era funcionária de uma empresa de telemarketing quando recebeu o diagnóstico de depressão, ansiedade e síndrome do pânico em 2008.

Passei mal pela primeira vez no trabalho. Com o diagnóstico, o médico me deu o atestado de afastamento, mas a empresa não o aceitou.

Segundo ela, o setor de recursos humanos da companhia alegava que “depressão não é motivo para se afastar”.

“Tive que me demitir. Saí sem direito nenhum e estou desde então fora do mercado de trabalho”, explica.

Eduardo Vieira, 34, é funcionário público e atuava na área de educação quando recebeu o diagnóstico de transtorno misto de depressão e ansiedade.

Ele diz que o problema foi desencadeado por não ter conseguido se adaptar a um novo local de trabalho. O afastamento fez com que uma função adicional de sua responsabilidade fosse cessada, assim como parte de sua remuneração.

Não conseguia mais ir trabalhar. Estou afastado desde maio do ano passado e não pretendo voltar para a área da educação“, conta.

Para Clarice Gorenstein, professora do departamento de farmacologia da USP, as empresas precisam implementar políticas para casos de depressão.

A baixa de produtividade decorrente da depressão já é reconhecida. O que as empresas precisam é implementar políticas para lidar com esses efeitos, principalmente de cunho educacional.


Texto por Bárbara Libório para empregos e carreiras da Folha de São Paulo

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