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Felicidade X Prazer

Categoria: Autoconhecimento, Emoções e Sentimentos

Você é feliz?

Felicidade, no conceito científico, é um bem-estar subjetivo. É uma avaliação que o sujeito faz da sua própria vida, e que inclui um predomínio das emoções positivas em detrimento das negativas. O que não significa que elas [emoções negativas] não existam. Isso é um aspecto muito importante. Então são baixos índices de humores negativos e altos níveis de satisfação com a vida. É nesse balanço que você chega à conclusão se você é mais ou menos feliz.

Alegria e o bem-estar são um tipo de prazer. São emoções positivas que fazem parte da felicidade, mas não são o mesmo que felicidade. E daí tem uma confusão tremenda porque, na sociedade de consumo, prazer é vendido sob o rótulo de felicidade: “Tome este refrigerante e você será feliz”, “Faça compras no nosso supermercado, que aqui é lugar de gente feliz”, etc. Como se a coisa fosse assim simples.

As pessoas em geral acabam confundindo prazer com felicidade.

Isso é um problema? Porque neurofisiologicamente falando, o prazer é efêmero por natureza. Ele acaba muito rápido. O mais alto prazer que a gente pode ter é pontual. Ele acaba. Eu gosto sempre de citar uma pesquisa feita com cobaias, um estudo experimental replicado várias vezes: os pesquisadores colocaram eletrodos no centro de prazer do cérebro de ratinhos. Toda vez que o ratinho apertava uma barrinha na gaiola, era dada uma pequena descarga elétrica no seu cérebro e isso simulava uma sensação de prazer. Sabe o que aconteceu com todas as cobaias testadas? Morreram. Morreram de inanição. Porque elas ficavam compulsivamente apertando a barrinha, que nem loucas. Esqueciam de comer, beber água, de dormir, de fazer sexo… Elas ficavam enlouquecidamente apertando a barrinha até a morte.

Nosso cérebro tem uma característica que é chamada de habituação. A primeira vez que a gente tem uma experiência de prazer nova, a descarga de neurotransmissores que acontece no nosso cérebro é muita inusitada. Traz uma sensação de prazer muito intensa. Só que nos habituamos a esse estímulo. Ou seja, quando tentamos repetir a experiência, já não sentimos a mesma coisa.

O Dr. Seligman tem uma metáfora no seu livro “Felicidade Autêntica”. Ele diz que a primeira colherada de um sorvete de baunilha nunca é igual à segunda, que nunca é igual à terceira. Da quarta em diante, você só está acumulando caloria. É mais ou menos isso. O prazer neurofisiologicamente está fadado a ser limitado. Não é que eu não tenho que ter prazer na vida. O prazer é uma emoção positiva, genuína, faz parte da felicidade. E o que fazer para lidar com essa habituação? Você tem que usar seu autocontrole. Você tem que intercalar momento de prazer, com não-prazer. Usar seu autocontrole para não ser vítima do próprio prazer.

Só que em uma sociedade de consumo, onde o prazer é vendido, fica até mais legal chamar prazer de felicidade.

Assim as pessoas acreditam que podem fazer shopping-terapia para ser mais felizes. Precisam muito comprar o carro do ano e falam “ai, estou muito feliz com o meu carro”. Confundem. Seu carro não traz felicidade, você pode estar satisfeito com ele. Mas ele não é capaz de trazer felicidade. Pelo menos não a felicidade que a ciência entende por tal.

O caminho não é único, mas certamente o começo é comum. E esse começo é o autoconhecimento. Não dá para você chegar a esse resultado [ser feliz], sem passar pelo autoconhecimento. Desde que o homem tem consciência sobre si mesmo, vem buscando meios de ser mais feliz. Provavelmente o próprio homem primitivo, quando inventou a roda, estava querendo ser mais feliz, tornar sua vida mais agradável. Isso é uma característica inerente ao ser humano.

Agora, o interessante é que nem todo mundo está disposto a trabalhar pela sua felicidade.

Você está disposto a ter o trabalho de dedicar-se a um projeto pessoal de felicidade? A mudar determinados circuitos cerebrais que fazem com que você seja uma pessoa, por exemplo, pessimista? Você esta disposto a descobrir aquilo que você tem de melhor a oferecer para o mundo? Descobrir suas qualidades, suas “forças pessoais”? Você está disposto a investir o tempo necessário para descobrir o sentido da sua existência?

Vou te dar um exemplo terrível. Eu sou muito resistente a fazer afirmações sobre celebridades, sejam elas boas ou más, pelo simples fato de que eu, como psicóloga, não posso falar nada de alguém que eu não conheça. Mas eu ouso sempre nos meus cursos citar uma celebridade do mal, que é o traficante Fernandinho Beira-mar. Eu tenho quase certeza que, entre as forças pessoais dele, consta a liderança. É meio óbvio… O cara consegue liderar o tráfico de drogas mesmo estando dentro de uma prisão. Ou seja, líder ele é. O que ele resolve fazer com essa qualidade, com essa característica, é uma outra questão. Todos temos habilidades, assim como temos limitações.

Por Lilian Graziano (Psicologia Positiva)

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