Se você toma antidepressivo e já leu que a depressão é causada por “baixa serotonina”, talvez tenha se assustado com as notícias recentes questionando essa teoria. Este conteúdo ajuda a entender o que a ciência realmente mostra.
Uma ampla revisão sistemática publicada em 2022, conduzida pela pesquisadora Joanna Moncrieff e colegas, analisou décadas de estudos e não encontrou evidências consistentes de que a depressão seja causada por níveis baixos de serotonina.
Ainda assim, cerca de 80% do público leigo acredita na ideia do “desequilíbrio químico” como explicação principal para a depressão, segundo a mesma publicação.
Neste conteúdo, vamos explicar de onde veio a teoria da relação entre depressão e serotonina, o que a pesquisa mais recente mostra e o que isso significa, na prática, para quem convive com a depressão.
De onde surgiu a teoria da depressão e serotonina?
A ideia ganhou força nos anos 1990, junto com o lançamento dos antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina, conhecidos pela sigla ISRS.
Como esses medicamentos aumentam a disponibilidade de serotonina no cérebro e ajudam parte das pessoas com depressão, surgiu a hipótese de que a causa da depressão seria justamente a falta dessa substância.
Essa explicação se popularizou rapidamente, em parte porque oferecia uma forma simples e biológica de entender um sofrimento complexo, ajudando também a reduzir o estigma em torno do diagnóstico.
O que os novos estudos encontraram sobre depressão e serotonina?
A revisão reuniu estudos que investigaram diferentes formas de medir a atividade da serotonina no corpo, incluindo níveis do neurotransmissor e de seus metabólitos, receptores cerebrais e o gene ligado ao transporte de serotonina.
Em nenhuma dessas frentes os pesquisadores encontraram uma associação clara e consistente entre níveis baixos de serotonina e depressão.
O estudo também não encontrou evidências de que pessoas saudáveis tivessem mais atividade serotoninérgica do que pessoas com diagnóstico de depressão.
Isso significa que os antidepressivos não funcionam?
Não. Muitas pessoas relatam melhora significativa dos sintomas com o uso de antidepressivos, e essa experiência continua sendo real e válida, independentemente do mecanismo exato por trás dela.
O que a pesquisa questiona é a explicação de “por que” esses medicamentos ajudam, não o fato de que ajudam para parte significativa das pessoas que os utilizam sob orientação médica.
A decisão de iniciar, manter ou interromper qualquer medicação deve ser feita sempre em conjunto com um médico psiquiatra, nunca por conta própria com base em notícias sobre pesquisas científicas.
Se não é a serotonina, o que causa a depressão?
A ciência atual entende a depressão como um transtorno multifatorial, resultado do cruzamento entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, e não de uma causa química isolada.
Entre os fatores biológicos estudados estão a genética, alterações hormonais e o funcionamento de diferentes regiões cerebrais ligadas à regulação emocional, além de processos inflamatórios que vêm ganhando atenção na pesquisa recente.
Fatores como histórico de trauma, padrões de pensamento, isolamento social e condições de vida também têm peso comprovado no desenvolvimento do quadro.
Por que a ideia do “desequilíbrio químico” ainda é tão popular?
Explicações biológicas simples costumam ser mais fáceis de comunicar do que a complexidade real de um transtorno multifatorial, o que ajuda a explicar sua popularidade.
Para muitas pessoas, entender a depressão como um “desequilíbrio químico” também ajudou a reduzir a culpa e o autojulgamento, o que tem valor emocional mesmo quando a explicação científica é incompleta.
O desafio agora é comunicar uma explicação mais precisa, sem perder esse efeito de acolhimento e redução de estigma que a ideia antiga proporciona.
Essa descoberta muda como a depressão deve ser tratada?
Não na prática clínica imediata. O tratamento da depressão já era, mesmo antes dessa revisão, baseado em uma combinação de psicoterapia e, quando indicado, medicação, ajustada individualmente.
A principal mudança está na forma de explicar a depressão para quem convive com ela: entender que o quadro não se resume a um desequilíbrio químico simples ajuda a valorizar também os fatores psicológicos e sociais no tratamento. Isso reforça a importância da psicoterapia como parte central do cuidado.
Qual o papel da psicoterapia diante dessa complexidade?
A psicoterapia trabalha diretamente com os fatores psicológicos e sociais da depressão, como padrões de pensamento, experiências de perda e contexto de vida, que a explicação puramente química não alcança.
Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental e a psicanálise oferecem caminhos diferentes para investigar esses fatores, e nenhuma é universalmente superior à outra.
Na Psicotér, a equipe reúne profissionais de diferentes abordagens, o que permite construir um plano de cuidado alinhado à história de cada pessoa. Conhecer a psicoterapia individual é um bom caminho para quem busca entender melhor o próprio quadro.
Para quem prefere flexibilidade de horário e localização, a psicoterapia online oferece o mesmo cuidado clínico à distância, inclusive para pacientes que moram fora do país.
Quando os sinais merecem avaliação profissional?
Vale buscar avaliação quando sinais de depressão persistem por mais de duas semanas, aparecem na maior parte dos dias e começam a interferir no trabalho ou nos relacionamentos.
Se você ou alguém próximo estiver em risco imediato, procure ajuda agora pelo Centro de Valorização da Vida, o CVV, no número 188, disponível 24 horas todos os dias, ou vá até o serviço de emergência mais próximo.
Entender a ciência não substitui a busca por cuidado
Entender o que a ciência realmente mostra sobre depressão e serotonina ajuda a enxergar o transtorno com mais precisão, mas não substitui uma avaliação profissional individual.
Na Psicotér ajudamos você a entender o que está sentindo e qual caminho de cuidado faz mais sentido. Atendemos online para todo o Brasil e para pacientes no exterior, além do atendimento presencial em Porto Alegre. Entre em contato e converse com a nossa equipe.
Perguntas frequentes
Devo parar de tomar meu antidepressivo depois dessa notícia?
Não. Qualquer alteração no uso de medicação deve ser conversada com o médico responsável, nunca decidida sozinho(a) com base em notícias sobre pesquisas científicas.
Se não é a serotonina, por que o antidepressivo me ajudou?
Os mecanismos exatos ainda estão sendo estudados. É possível que os efeitos envolvam outros processos além da simples elevação da serotonina, como mudanças na plasticidade cerebral.
Essa pesquisa é aceita pela comunidade científica?
A revisão foi publicada em uma revista científica de alto impacto e gerou debate relevante na psiquiatria, embora nem todos os pesquisadores concordem com todas as suas conclusões.
A depressão tem alguma base biológica, então?
Sim. Genética, funcionamento cerebral e alterações hormonais continuam sendo fatores de risco estudados, apenas não se resumem a um único neurotransmissor.
Psicoterapia sozinha é suficiente sem medicação?
Em muitos casos, sim. Em quadros mais intensos, o acompanhamento psicológico pode caminhar junto com avaliação médica, que vai indicar se há necessidade de medicação.



