Homossexualidade ou Bissexualidade: “É só uma fase!”

Grande parte dos pais de filhos homossexuais ou bissexuais pensam que essa experiência “é só uma fase” e que “vai passar” ou então que “ele (o filho) não sabe o que quer”.

São relatos que presenciamos no cotidiano de muitas famílias e que traduz a dificuldade dos pais em lidar com as escolhas dos filhos no que se refere à sexualidade. Mas por que será que é tão difícil para os pais aceitar essa escolha dos filhos?

Numa sociedade predominantemente machista, católica e tradicional, existem muitos tabus, mitos e preconceitos que envolvem o tema quando se trata de sexualidade, ou melhor, quando falamos em homossexualidade. Aliás, independentemente das diferenças culturais, crenças religiosas ou ideologias políticas, esse assunto pode ser tratado com maior ou menor grau de repressão, mas nunca é totalmente aceito e compreendido como “normal” se relacionar com outra pessoa do mesmo sexo.

O preconceito é induzido nas pessoas desde que nascem. A mulher é ensinada a casar, cuidar da casa, do marido, dos filhos, ser a referência afetiva do lar. O homem em contrapartida, já cresce com o exemplo do pai, deve estudar, trabalhar, ser bem sucedido, casar e se tornar o provedor financeiro de sua família. A sociedade impõe que se nascemos de um sexo temos que necessariamente sentir atração pelo sexo oposto. E de fato muitas pessoas seguem esse caminho e fazem naturalmente essas escolhas. Mas e quando isso não ocorre dessa maneira ensinada e socialmente aprendida? Será que a escolha deixa de ser boa ou natural só porque não atende ao esperado pela maioria?

O ser humano é muito mais complexo do que teorias tão simplistas que consideram que para ser feliz deve-se ser heterossexual e predeterminam escolhas tão importantes e essenciais na vida de um indivíduo. Sem dúvida esse assunto é tão polêmico que traz muitas discussões ao longo dos anos e ainda nos tempos modernos. Até 1973 a homossexualidade era considerada uma doença mental no Brasil, foi a partir de 1990 que a OMS – Organização Mundial de Saúde retirou a opção sexual da lista de doenças mentais, sendo retirada também do DSM manual psicodiagnóstico. A mudança ainda é recente se pensarmos quantas pessoas, familiares, pais, tios e avós vêm dessa geração e ainda confundem a escolha objetal como desvio de personalidade. O CFP – Conselho Federal de Psicologia desde 1999 proíbe as manifestações contrarias a liberdade sexual, se opondo a todo e qualquer movimento de “cura gay” tão expostos ainda hoje em dia. Induzir a escolha objetal de alguém se torna uma ameaça à saúde mental e ao bem estar do individuo. Ninguém melhor do que ele mesmo para conhecer seus interesses e optar pela sua escolha afetiva, independentemente do sexo que a outra pessoa pertence. O amor surge entre duas pessoas, e não entre dois gêneros! O bullying é outra forma de violência e preconceito muito prejudicial instituído nos grupos de diversas idades e classes sociais que comprovadamente contribui para o aumento do índice de suicídios que caracterizam o público GLS – Gays lésbicas e simpatizantes.

Paremos para pensar como é difícil para alguém que se depara com essa questão. Tanto o filho que se sente atraído por alguém do mesmo sexo quanto para os pais que se deparam com uma situação inusitada. Essa escolha não é um estado transitório ou passageiro e, ao contrario do que muitos pais pensam, ela não vai passar, o que não significa que seja imutável.

Torna-se complicado administrar as emoções frente a amigos, família e sociedade, causando muitas vezes sentimentos negativos de vergonha, culpa, medo, angústia e sofrimento em assumir essa escolha, tanto para os filhos quanto para os pais. Os pais têm medo da discriminação, da agressão e do preconceito que tanto eles como seus filhos irão passar. Manifestam preocupações em relação aos outros: “O que será que os outros vão pensar?” ou “Como ficará a imagem da família?” Como é que nós podemos ter tido um filho gay?”

Os pais geralmente passam por um período de negação, confusão, ambivalência e aceitação. Não há um período fixo ou tempo determinado para se passar por cada etapa desse processo de descoberta e assimilação quanto à homossexualidade do filho, pois a forma como os pais encaram essa situação depende de como vivenciam a própria sexualidade, de diferenças particulares de cada família, entre outros fatores externos.

Negação é a fase inicial em que os pais creem que com o passar do tempo a escolha vai mudar, considerando os desejos homossexuais uma atitude de experimentação ou curiosidade do filho. Alguns pais desconfiam e tentam guardar segredo sem que o filho perceba. Porém vai se tornando insustentável manter um segredo dessa natureza, entrando na fase da “confusão”. É quando começa a “cair à ficha” sobre as condutas homossexuais do filho, os pais pensam que talvez essa escolha possa persistir, passando por sentimentos contraditórios que oscilam entre compreender, criticar ou procurar culpados para os atos do filho, entrando na fase de ambivalência, e por fim chega o momento de aceitação, que constitui o desfecho desse processo.

Quem dera que todos os pais conseguissem evoluir a esse ponto e perceber o quanto o filho pode não contar com a aceitação de outras pessoas, mas precisará muito do seu apoio para se sentir em paz, realizado e feliz. Ser aceito pelos próprios pais e sua família é o mais importante para enfrentar o mundo lá fora. Os pais nunca estão preparados para lidar com essa escolha quando percebem a sexualidade dos filhos, não aceitam prontamente o relacionamento gay, mas se vêem diante dessa missão em acolher as decisões dos filhos. A insegurança, o medo, a dúvida, a angústia e a repressão podem ser o começo desse processo de escolha, mas não deve ser o fim. O processo de aceitação da sexualidade do filho é um exercício de evolução!

Os pais devem ampliar a consciência, não fazer pressão, evitar críticas, cobranças e julgamentos exagerados quanto à homossexualidade dos filhos. Manter o autocontrole de suas próprias emoções, buscando a compreensão, o diálogo, a informação e principalmente a capacidade de empatia com os sentimentos do filho. A via é da resiliência para que a família se mantenha unida, procurando se inteirar do assunto de forma respeitosa e amigável e, se necessário, buscar orientação de um psicólogo para esse processo de aceitação da homossexualidade do filho.

Algumas teorias sustentam a ideia de que a origem da escolha sexual é genética e biologicamente pré-determinada, como uma caraterística inata, defendem a existência de diferenças hormonais e também estruturais no cérebro masculino e feminino diante de escolhas heterossexuais, bissexuais e homossexuais. Já outras correntes psicossociais apoiam as hipóteses de construção da escolha objetal a partir das nossas relações, modelos de identificação e experiências. O que de um jeito ou de outro, sendo através da genética ou da convivência, acaba por atribuir a causa das nossas escolhas aos pais, reforçando a ideia de “culpa”. Não se torna nada construtivo ou benéfico debater sobre o sexo dos anjos. Nossas escolhas pelo objeto de interesse assim como quaisquer características da nossa personalidade são constituídas por um conjunto de fatores, nada determinantes um ou outro, mas formada a partir da interação de vários aspectos.

Diferentemente do determinismo que ocorre com a cor dos olhos e dos cabelos, por exemplo, em que o bebe já nasce com esses aspectos predefinidos. Pessoas com seus achismos apenas reforçam mitos e preconceitos, assim como algumas pesquisas na área não se tornam fidedignas e nem confiáveis em função do tabu acerca do assunto, pois retrata o que as pessoas dizem e muitas pessoas não relatam o que realmente sentem ou pensam quando se trata da sua opção sexual.

Os pais devem se libertar desses estereótipos, desses sentimentos negativos e nocivos de culpa, pois não há respostas para a homossexualidade do filho. A orientação sexual em nada tem haver com a educação que os pais transmitem aos filhos, com base nos seus valores, princípios e responsabilidades. Comprovadamente, o que se sabe é que a homossexualidade é uma realidade social, e não constitui uma doença! Ninguém cria um homossexual, assim como ninguém transforma pessoas em heterossexuais, isso é um grande mito.

As diversas formas de sexualidade fazem parte da humanidade, pessoas se sentem atraídas por pessoas, e não por gêneros ou sexos, sem ter de criar rótulos desnecessários nesse processo de escolha. A descoberta por objetos de interesse deveria surgir como um processo natural, e em diferentes etapas da vida, mais liberto dessa pressão interna nociva de que deveria ser imposta ou aprendida. Se na infância percebem-se sinais de escolhas, na adolescência surgem manifestações mais claras e definidas, podendo também surgir na fase adulta da vida, podendo mudar também esse objeto de interesse. Não há regras, nem padrões anormais, apenas sentimentos e afetos que deveriam guiar essas escolhas objetais!

Por Márcia Moraes – Psicóloga da Equipe Psicotér

 

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O perigo de rotular as pessoas!

 

A riqueza do ser humano está na sua diversidade. Se ao mesmo tempo somos seres únicos e diferentes nas nossas peculiaridades, também somos todos iguais quanto aos nossos deveres e direitos, a dignidade, ao respeito e a liberdade. As crianças desde que nascem têm o seu temperamento, vêm com aspectos genéticos, e têm experiências que lhes tornam únicas, cada um com o seu jeito de ser, sentir, pensar e agir, apresentando capacidades e limitações em maior ou menor grau. As pessoas têm a lamentável prática de rotular os indivíduos, reduzindo-o a alguma característica que não atende ao padrão ético ou moral da sociedade moderna.

Emitir juízos de valor é um hábito muito comum nas relações familiares ou nas avaliações do ambiente escolar, atribuindo a criança falsos estereótipos. Julgar outra pessoa baseado na sua própria história, conforme seus próprios valores e padrões é um grande equívoco, pois eu não vivencio a realidade alheia e não o conheço suficientemente e verdadeiramente o outro capaz de avaliar o seu universo, isso chama-se preconceito e falta de respeito à dignidade alheia.sobretudo quando dados na infância, é condenar esse indivíduo a um futuro sem considerar as possibilidades de mudança e escolhas que ele mesmo possa vir a fazer. A criança tem uma postura relacional, isso significa que ela apresenta diferentes atitudes que variam conforme o contexto e o ambiente, ou seja, uma mesma criança pode reagir de formas diferentes, quando desprovida de apelidos ou rótulos. A experimentação de papéis faz parte do processo de aprendizagem e do desenvolvimento sadio de um indivíduo em busca de autoconhecimento e formação de identidade, constituindo desse modo seus hábitos, valores, interesses e crenças decorrente dessa interação social. Os adultos, pais, educadores e profissionais de referência são os principais formadores de caráter, responsável por quem essa criança se torna, moldando comportamentos e formando opiniões.

A presença de rótulos dados na infância afeta a saúde mental, independentemente se positivos ou negativos, eles trazem consequências danosas e irreversíveis no desenvolvimento emocional dessa criança. Ao atribuir um rótulo a esse indivíduo, está excluindo-o do grupo, marcando a sua diferença, tornando-o inadequado e rejeitado, privando essa criança da liberdade de vir a ser o que ela quiser.

Rótulos positivos reforçam a ideia de superioridade em relação aos outros, nutrem expectativas grandiosas, contribuem para que a criança desenvolva uma percepção distorcida de si e suas capacidades, prejudica a autocritica e o autoconhecimento, tornando a criança incapaz de refletir sobre as suas atitudes de maneira coerente e real. Esse padrão leva a insegurança e a incapacidade em lidar com as frustrações, pois a criança não se arrisca naquilo que ela não é tão boa. A criança desestimula em esforçar-se ou aceitar novos desafios se não tiver garantia dos resultados esperados, pois carrega esse rótulo positivo e tem medo de perder a admiração conquistada. A responsabilidade em ser esse “bom menino(a)” sempre ou “o(a) melhor” vira um peso, como se ele não pudesse decepcionar os outros que o percebem como infalível ou perfeito. No entanto, sabemos que ninguém é bom em tudo o tempo todo, esse alto padrão de expectativas e exigências internas vira um fardo, trazendo grande pressão interna, angústia e sofrimento.

Os elogios só terão efeito positivo quando provindos de um esforço real realizado pela criança, como um reconhecimento de uma conquista, somente nesse caso funcionará como um reforço positivo, caso contrário, desestimula, os elogios que não são resultados do comportamento não promovem o desenvolvimento emocional da criança e ainda prejudicam a autoestima.

E se os rótulos positivos têm todo esse efeito prejudicial no desenvolvimento de uma criança, imagina o fardo dos estereótipos negativos! Eles dificultam a adaptação ao ambiente escolar, afeta igualmente a autoestima dessa criança e a percepção de suas capacidades, impedindo o seu potencial de desenvolvimento.

As crianças estão formando a sua identidade, ainda não sabem quem são ou o que querem, e por esse motivo experimentam diferentes papéis. Estão inseguras, pois a infância é a fase em que se está mais suscetível ao julgamento dos outros, portanto valorizam muito a opinião externa. As suas caraterísticas e personalidade se forma a partir da interação social, o que penso de mim será influenciado pelo modo como os outros me veem,

A pratica do bullying tão comum nas escolas, nas famílias e na sociedade, é um bom exemplo disso. A criança ou jovem encontra-se tão inseguro que atribui apelidos aos demais a partir de caraterísticas físicas e defeitos dos outros, sustentando dessa forma a falsa sensação de segurança interna. Como se ao falar do outro eu me sentisse mais confortável com as minhas próprias falhas. Mas o efeito é justamente contrário, pois ao expor o outro ele reage com a autodefesa esperada, respondendo à intimidação e à ameaça. O bullying caracteriza-se por uma agressão física ou psicológica que ocorre repetida e intencionalmente para ridicularizar, humilhar e intimidar as vítimas, na qual a violência incita a violência. A criança desqualificada não consegue expressar o seu potencial e da mesma forma desqualifica outras crianças da sua convivência também.

Os rótulos atribuídos na infância afetam as relações interpessoais, prejudicando o convívio respeitoso, baseado na ética e na moral. O preconceito instituído nas relações impossibilita uma interação mais humana, digna e cordial.

Rotular é enquadrar um indivíduo numa categoria tão simplista, que não reflete um envolvimento afetivo e a realidade do ser humano. Nos impede de conhecer as reais necessidades do sujeito, de desenvolver estratégias de aprendizagem e enxergar soluções. Adjetivar comportamentos infantis é desconsiderar a complexidade humana, atribuindo a essas crianças verdades absolutas, reducionistas e imutáveis. Ao rotular estamos contribuindo na formação de jovens despreparados para lidar com as adversidades, causando grande impacto na vida desses indivíduos e na sociedade atual.

Por Márcia Moraes – Psicóloga da Psicotér

 



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