Transtornos Alimentares: Causas, Sintomas e Tratamentos

 

Fazer algum tipo de dieta alimentar é algo comum. Há aqueles indivíduos que pretendem emagrecer, os que pensam em engordar e os que precisam cuidar a alimentação devido a algum problema de saúde ou mesmo para evitar problemas de saúde. Vive-se um retorno à alimentação saudável, aos exercícios, como forma de manter-se saudável. A maioria dos indivíduos já fez, está fazendo ou fará alguma dieta na vida. Até aí, tudo bem, pois todos podem buscar a saúde ou o corpo que mais agrada. Essa busca, porém, para outros indivíduos, pode tornar-se uma doença, como acontece nos transtornos alimentares.

Os transtornos alimentares são perturbações no comportamento alimentar, podendo levar ao emagrecimento extremo, à obesidade ou a outros problemas físicos. A anorexia nervosa e a bulimia nervosa são os transtornos da alimentação mais comuns, porém, não são os únicos.

Para alguns estudiosos, os transtornos alimentares podem estar relacionados a algumas culturas, como por exemplo, a anorexia e a bulimia, que são encontradas principalmente em mulheres ocidentais. Além desses aspectos, não se pode deixar de fora outros, como os biológicos, psicológicos e familiares.

Em termos psicológicos e familiares, a pressão por estar e manter-se magro aliada à baixa autoestima podem tornar os indivíduos mais propensos a desenvolverem algum quadro de transtorno alimentar. Em termos biológicos, pode-se dizer que a serotonina (neurotransmissor relacionado à sensação de prazer e de felicidade) pode afetar o apetite, o humor e o controle dos impulsos dos indivíduos.

Os transtornos da alimentação se evidenciam com frequência durante a adolescência ou na idade adulta jovem, embora alguns estudos indiquem que seu início pode ocorrer durante a infância ou mais tardiamente na idade adulta. As mulheres são as mais afetadas por esses transtornos, apesar do aumento dos casos de homens que apresentam algum transtorno alimentar. Os transtornos alimentares frequentemente ocorrem junto com outros transtornos psiquiátricos, como depressão, abuso de drogas e transtornos ansiosos. Reconhecer o transtorno alimentar como doença real é muito importante.

Os tipos mais comuns de transtornos alimentares são:

Anorexia nervosa: caracteriza-se pela recusa do indivíduo em alimentar-se para manter um peso mínimo esperado para a idade e a altura. Estes indivíduos também apresentam temor em engordar e percebem-se sempre mais pesados do que realmente estão. Na anorexia, a perda de peso pode iniciar através da diminuição da ingestão de alimentos, como em outras dietas, com o agravamento da necessidade de diminuir a alimentação para obter o peso e corpo desejados. O medo de engordar não é compensado pela intensa perda de peso, havendo um aumento dessa preocupação, à medida que o peso real diminui, ou seja, quanto mais magro o indivíduo está, mais ele sente necessidade de emagrecer, pois não percebe a diferença em seu peso e corpo.

Para o indivíduo com anorexia nervosa, sua autoestima está relacionada ao seu peso e corpo, por isso, a perda de peso é uma conquista e uma prova de disciplina; ao mesmo tempo, ganhar peso é considerado um fracasso.

Apesar de alguns indivíduos reconhecerem que estão magros, eles desconsideram as implicações que esse estado pode levar à saúde. A amenorréia (ausência de pelo menos três ciclos menstruais) é um importante indicador fisiológico da anorexia nervosa e pode retardar a primeira menstruação em meninas no início da adolescência. Além disso, outros problemas decorrentes da anorexia podem até levar os indivíduos à morte, como, por exemplo, infecções, alterações no metabolismo, desequilíbrio eletrolítico e até o suicídio.

Bulimia nervosa: é caracterizada por compulsões alimentares periódicas, ou seja, a ingestão de uma grande quantidade de alimentos em um curto espaço de tempo, às quais se seguem métodos de compensação inadequados, como a indução do vômito, o uso de laxantes e diuréticos e a prática excessiva de exercícios. Assim como na anorexia nervosa, existe o medo de ganhar peso e a autoavaliação do indivíduo está baseada no corpo.

Para que se estabeleça o diagnóstico de bulimia nervosa é necessário que os comportamentos citados acima estejam presentes por pelo menos duas vezes por semana, por um período mínimo de três meses. Os alimentos normalmente ingeridos durante a compulsão alimentar são aqueles altamente calóricos, como os doces, pães e gorduras.

Assim como na anorexia, os indivíduos com bulimia nervosa escondem seu comportamento da família e dos amigos. Por não haver perda de peso significativa, muitas pessoas próximas não percebem o problema do indivíduo. Muitas vezes, ainda, estas pessoas comem escondidas e realizam seus atos de modo bem discreto. Não é incomum encontrar uma grande quantidade de alimentos escondidos nos quartos e casas de pessoas com bulimia.

Entre os problemas fisiológicos consequentes da bulimia nervosa estão o desequilíbrio eletrolítico, a perda de potássio, a inflamação do esôfago e danos no esmalte dos dentes (estes dois últimos devido à acidez estomacal decorrente dos episódios de indução ao vômito).

Transtorno do comer compulsivo: este transtorno é caracterizado por episódios de compulsão alimentar, que são diferentes da bulimia nervosa por não serem seguidos de métodos purgativos para eliminar os alimentos ingeridos, nem a preocupação irracional com o peso e a forma corporal. As pessoas com o transtorno do comer compulsivo perdem o controle durante os frequentes ataques e só conseguem parar de comer quando se sentem fisicamente desconfortáveis. A maioria é obesa e uma parcela significativa das pessoas que fazem controle alimentar e de peso com acompanhamento médico sofrem deste transtorno.

Para o estabelecimento do diagnóstico do comer compulsivo, os ataques de comer compulsivamente devem ocorrer pelo menos duas vezes por semana, por um período mínimo de seis meses, e obedecer aos seguintes critérios:

1) Episódios recorrentes de alimentação compulsiva, caracterizados pela ingestão de uma quantidade excessiva de alimentos num determinado período e por uma sensação de falta de controle sobre a ingestão desses alimentos durante o episódio;

2) Durante a ocorrência dos episódios, devem estar presentes no mínimo três dos indicadores abaixo:

  • Comer muito mais rápido que o normal;
  • Comer até sentir-se desconfortável fisicamente;
  • Ingerir grandes quantidades de comida, mesmo estando sem fome;
  • Comer sozinho por sentir-se envergonhado da quantidade de comida ingerida;
  • Sentir-se culpado e/ou deprimido após o episódio.
  • Angústia acentuada devido ao comportamento de alimentar-se excessivamente. Os sentimentos de nojo e vergonha de si mesmo podem levar a novos episódios compulsivos, criando um círculo vicioso de farras alimentares.

Além destes, existem outros transtornos alimentares menos comuns, mais ainda assim perigosos para a saúde física e mental e que merecem atenção:

Síndrome de PICA: caracteriza-se pelo impulso de se alimentar de coisas não nutritivas ou que não são socialmente aceitas em sua cultura, como sabonete, tijolo, argila, cascas de pintura, gesso, giz, cinzas de cigarro, etc. Este transtorno pode causar déficits vitamínicos, além de poder causar uma intoxicação ou haver necessidade de cirurgia para limpar os órgãos internos. As pessoas com maior propensão a desenvolver o transtorno de pica são mulheres com tendência histérica, grávidas, pessoas de certos grupos étnicos nos quais estes comportamentos são considerados normais, e indivíduos que passaram por sérias restrições no comportamento alimentar. 

Transtorno de ruminação: caracteriza-se pela remastigação ou regurgitação do alimento de forma repetida. Esta condição é psicológica quando não pode ser explicada por nenhuma condição médica. As consequências podem ser: desidratação, desnutrição, perda excessiva de peso e, em casos graves, morte.

Vigorexia: caracterizada pela insatisfação constante com a forma, força e vigor do corpo, levando a prática exaustiva de exercícios físicos, dietas radicais e uso abusivo de esteroides anabolizantes, óleos e outras drogas. Mostra-se um transtorno grave que pede atenção, pois pode ter sérias consequências à saúde. 

Ortorexia nervosa: caracteriza-se pela fixação por saúde alimentar, qualidade dos alimentos ingeridos e pureza da dieta. Na ortorexia nervosa, o indivíduo consome exclusivamente alimentos que venham de agricultura ecológica, livre de qualquer alteração, como componentes transgênicos, artificiais, pesticidas, herbicidas, corantes, açúcar, sal e etc. Muitas vezes, até a forma de preparar os alimentos e as ferramentas utilizadas são alvos de excessiva preocupação. É perigoso, pois pode levar o indivíduo a grandes jejuns quando fora de casa e um sério isolamento social devido a práticas muito rigorosas.

Transtorno alimentar noturno: caracteriza-se pelo comportamento alimentar excessivo durante a noite, mesmo em estado de sonambulismo. Costumam ser indivíduos que fazem algum tipo de regime alimentar em sua rotina. Além dos prejuízos alimentares, há também a preocupação com o estado psicológico do paciente, que começa a sentir que perdeu o controle de si mesmo.

Os transtornos da alimentação podem ser tratados e o peso saudável restaurado.  Quanto mais cedo esses transtornos forem diagnosticados e tratados, melhor será a evolução final. O tratamento dos transtornos alimentares busca, então, restaurar o comportamento alimentar adequado e restabelecer o peso considerado normal para a idade e a altura do indivíduo. O objetivo do tratamento é tirar o indivíduo do desequilíbrio clínico que a gravidade dos sintomas pode gerar. Devido à sua complexidade, os transtornos da alimentação requerem um plano de tratamento abrangente, envolvendo cuidados e monitoramento por médicos, intervenções psicossociais, acompanhamento psicoterapêutico, aconselhamento nutricional e, quando apropriado, tratamento medicamentoso.

Em relação ao restabelecimento da saúde mental, o psicólogo e o psiquiatra são os profissionais melhor preparados para realizar a avaliação e traçar estratégias para o tratamento do transtorno. O trabalho do psicólogo tem o objetivo de tratar as relações do indivíduo, quer seja com sua família, com a sociedade e, principalmente, consigo mesmo. O processo psicoterápico auxilia na recuperação da autoestima, oferecendo um caminho de descoberta das causas dos sintomas, possibilitando o lançamento de estratégias e habilidades para melhor lidar com os desequilíbrios emocionais. No caso dos transtornos alimentares, o psiquiatra poderá medicar o paciente de acordo com patologia original e as comorbidades mentais, a fim de resgatar o equilíbrio do humor.

Transtornos alimentares são doenças sérias e, como visto, passíveis de tratamento através da psicoterapia. Se você se identificou com alguns destes transtornos ou conhece alguém que esteja sofrendo de algum destes transtornos, procure a ajuda de um profissional da psicologia. Ele irá tratar e a diminuir os sintomas psicológicos decorrentes destes transtornos. 

Por Anne Griza – Psicóloga da Psicotér